quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Moradores do Butantã City querem transformar bairro em condomínio fechado


Moradores do Butantã City, na zona oeste, perto da USP, uma das áreas residenciais nobres de São Paulo, querem transformar o bairro em um bolsão semelhante a Alphaville, com portão e vigilância 24 horas, para aumentar a segurança e impedir a invasão de travestis e prostitutas. A idéia conta com o apoio do subprefeito do Butantã, Maurício de Oliveira Pinterich.

- Isso é possível sim. Até sugeri que desenvolvessem um projeto de comunidade protegida, em conjunto com a Companhia de Engenharia de Tráfego, para o caso ser analisado – diz Pinterich.

Enquanto o projeto não fica pronto, a medida já vem sendo adotada em diversas ruas do bairro, onde a população, por conta própria, colocou barricadas, cancela com câmera de monitoramento, grades, obstáculos e correntes. Em algumas vias há até cartazes informando que o acesso de carros e pedestres é controlado.

A principal reclamação é contra a presença de travestis e prostitutas.

- Ninguém agüenta mais essa situação. É barulho, droga, sujeira e confusão até amanhecer. Não se pode mais entrar ou sair de casa à noite porque a rua virou ponto de prostituição – reclama Carlos Wang, vice-presidente da Sociedade Amigos do Butantã City e da Cidade Universitária.

Uma comissão de moradores está sendo formada para elaborar a minuta do projeto para apresentar na Câmara Municipal. Se não for possível isolar tudo da prostituição, os moradores querem, pelo menos, trancar ruas e calçadas à noite, entre 19h e 6h.

- A lei permite o fechamento de ruas para o trânsito, mas determina que a calçada seja livre, mesmo quando se trata de um questão de segurança – afirma Eduardo Ferraz, um dos moradores.

O trecho onde Ferraz mora, na Avenida Moncorvo Filho com Rua Gaspar Moreira, havia sido fechado com grades à noite. Porém, por causa de denúncia, o Ministério Público exigiu a reabertura.

- Se não houvesse denúncia, a rua continuaria fechada, como outras vias do bairro. O pedestre não circula a pé durante a noite – reclama Ferraz.

Com medo de que a fiscalização destruísse as grades, a moradora Maria de Lourdes Pimentel Malta, “síndica” da rua, a guardou em sua casa, na esperança de poder reverter a situação.

- Bastou tirar as grades e alguns dias depois ladrões tentaram assaltar a casa da esquina – lamenta.

Carlos Wang afirma que os moradores também estudam a possibilidade de acionar o município, para obrigá-lo a tirar a prostituição do bairro.

- Essas pessoas estão ocupando as calçadas para praticar um comércio ilegal, porque não têm Termo de Permissão de Uso (TPU). Então a Prefeitura deveria agir como faz com os camelôs.

Para a maioria dos moradores, o problema são os travestis.

- Eles ficam pelados, praticam atos obscenos e ninguém faz nada – reclama Camila Mingione, que quer fechar a rua onde mora, como a de seus pais, a Valdomiro Guilherme de Campos, uma das três vias fechadas regularmente.

Leila, travesti assídua da região, afirma que eles não querem prejudicar os moradores ou desvalorizar o bairro.

- A rua é pública, porque nós também pagamos impostos. O IPTU que eles pagam só garante exclusividade no imóvel.

Carlos Wang, vice-presidente da Sociedade Amigos do Butantã City e da Cidade Universitária, afirma que os moradores já pensaram até em atacar a clientela de travestis e prostitutas para afastá-los.

- Nossa idéia é colocar câmeras nas ruas para filmar os carros dos clientes e depois divulgar as imagens pela internet. Quero ver se eles voltam – diz.

Comerciantes são contra

Comerciantes estabelecidos da região do Butantã estão revoltados com a campanha dos moradores para transformar o bairro em condomínio.

- Eles querem comandar tudo, se sentem donos da região. Foi por causa deles que eu e dezenas de outros lojistas quebramos – diz Enriqueta Pelegrina, dona da loja Girassol, há 13 anos estabelecida na Rua Alvarenga.

Enriqueta afirma que, desde 2004, quando os moradores decidiram transformar o bairro em zona estritamente residencial, os comerciantes estão sofrendo as conseqüências.

- É um absurdo o que vem acontecendo. Metade da rua Alvarenga é considerada zona de residências e a outra não. Por isso, tive de deixar a casa onde formei toda a minha clientela e mudar para outra maior, na mesma rua, mas com aluguel muito mais caro.

Segundo a comerciante, as multas mensais de R$ 4 mil começaram a chegar em novembro de 2007, porque sua loja estava instalada em área residencial.

- Agüentei até a metade do ano mas, como outros, também fui obrigada a ceder. Agora não sei como fazer, porque estou totalmente quebrada. E também quebrei diversas famílias que empregava. Enquanto eles querem fechar o bairro, nos queremos somente poder trabalhar.

Motoristas que são obrigados a passar pelo bairro a trabalho também estão irritados com as mudanças.

- Se a gente erra uma rua, tem que dar uma volta imensa para retornar porque está tudo fechado – reclama o taxista José Maciel.

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