Butantã cresce, mulheres adoecem e saúde pública não chega: ausência de mamógrafo expõe abandono da região

Crescimento Demográfico e Necessidade de Saúde

A região do Butantã, uma das que mais cresce na cidade de São Paulo, tem enfrentado um paradoxo intrigante. Com um aumento populacional que saltou de 468 mil habitantes em 2022 para aproximadamente 580 mil em 2026, a demanda por serviços de saúde tornou-se crítica, especialmente para a população feminina. Dentro dessa população, mais de 122 mil mulheres têm mais de 40 anos, o que as coloca na faixa prioritária para a realização de mamografias e, consequentemente, para a prevenção do câncer de mama.

Entretanto, apesar desse crescimento notável, a ausência de mamógrafos na região revela uma vulnerabilidade na infraestrutura de saúde. Muitas dessas mulheres, que habitam áreas distantes dos centros de atendimento, enfrentam sérias dificuldades para conseguir acesso a exames essenciais, o que pode ter um impacto significativo nas taxas de detecção precoce de câncer.

Verbas Aprovadas

Em 2023, foram alocados mais de R$ 1 milhão de recursos federais destinados à aquisição de um mamógrafo para o Hospital Dia da Rede Hora Certa Butantã, localizada no Jardim Peri Peri. Além disso, o deputado estadual Antonio Donato também liberou R$ 500 mil para realizar as adaptações elétricas necessárias para a instalação do equipamento. A destinação de mais R$ 800 mil foi aprovada pelo Conselho Participativo Municipal (CPM) para a compra de um mamógrafo no Hospital Municipal Dr. Mário Degni, no Rio Pequeno.

Apesar da disponibilidade de verbas significativas, o equipamento destinado ao Hospital Dia permanece inoperante, e a aquisição do mamógrafo para o Mario Degni ainda aguarda soluções administrativas.

Equipamentos Inoperantes

A ausência de um mamógrafo funcional no Butantã é uma questão alarmante, especialmente quando se considera que as verbas para sua instalação estão disponíveis. A administração da prefeitura, sob a liderança de Ricardo Nunes (MDB), justifica a paralisação do funcionamento do equipamento por alegações de que são necessárias reformas estruturais e adaptações elétricas. Essa explicação, porém, não se traduz em ações efetivas, resultando em um quadro de lentidão e desinteresse em atender a uma necessidade tão urgente.

Deslocamento e Acesso à Saúde para Mulheres

O deslocamento é uma barreira significativa para muitas mulheres na região. Dependendo do transporte público, muitas enfrentam itinerários longos e cansativos para chegar até as unidades de saúde. A dificuldade em encontrar exames próximos e a necessidade de viajar longas distâncias para realizar uma mamografia são reais, e esse cenário é ainda mais complicado para aquelas que não têm condições financeiras de arcar com os custos do transporte. A espera pode se estender por meses, levando ao adiamento de exames preventivos vitais.

Relatos de Mulheres: Um Clamor por Justiça

A vivência cotidiana dessa realidade é testemunhada por muitas mulheres. Maria Celeste Rodrigues, conselheira no Hospital Mário Degni e na UBS Vila Dalva, ilustra essa situação. Ela relata que, mesmo sabendo que um mamógrafo está disponível a poucos quilômetros de sua residência, a espera pelo agendamento e a necessidade de se deslocar para unidades distantes são uma constante em sua vida. “Recusei um agendamento em Perdizes, que é longe, e só pude remarcar para abril. Isso é um exame preventivo; imagine a situação de quem já tem uma suspeita?” questiona.



A Indiferença da Gestão Pública

A administração pública enfrenta críticas por sua ineficiência e pela alegação de que a demanda por mamografias não é alta o suficiente para justificar a instalação dos equipamentos. Essa afirmação é desmentida pelos relatos de mulheres que enfrentam dificuldades diárias. A gestão municipal, em sua reunião recente, sustentou que um único mamógrafo seria suficiente, mas muitos na comunidade discordam dessa avaliação.

A Mobilização da Comunidade

Frente à inércia das autoridades, a comunidade tomou a iniciativa de se mobilizar e fez um abaixo-assinado na plataforma Change.org, solicitando a instalação imediata do mamógrafo no Hospital Mário Degni. Esse dispositivo, já reconhecido como referência em saúde da mulher na região, precisa ser ativado para que a detecção do câncer de mama possa ser efetiva. As vozes coletivas insistem que “a detecção precoce pode elevar a taxa de cura em até 95%.” Essa luta é essencial para garantir que os recursos destinados não sejam redirecionados ou paralisados pela burocracia.

A Insuficiência das Carretas de Saúde

Atualmente, a estratégia da gestão municipal de remediar a situação inclui a utilização de carretas de saúde que visitam a região esporadicamente. Essa solução é vista como inadequada por muitos, pois não atende à necessidade contínua de exames médicos. Maria Celeste observa que, em vez de depender de visitas ocasionais de carretas, é fundamental ter um serviço de saúde fixo que garanta a realização de exames regulares. O Hospital Dr. Mário Degni já possui estrutura e equipe, e a implementação do mamógrafo seria uma resposta direta às necessidades da comunidade.

Críticas ao Modelo de Gestão Municipal

A situação do Butantã serve como um exemplo do descaso enfrentado por periferias em grandes centros urbanos quando a saúde da mulher é tratada como uma prioridade secundária. Grupos críticos e movimentos sociais denunciam a ineficiência da gestão pública, que muitas vezes se vê aprisionada em um sistema burocrático que impede a realização de projetos vitais, apesar da disponibilidade de recursos financeiros. Enquanto isso, o câncer de mama continua a gerar consequências devastadoras sem o suporte necessário para tratá-lo de maneira eficaz.

A Luta por Mamógrafos e Direitos Humanos

A demanda por mamógrafos na região do Butantã não é apenas uma questão de saúde; é um aspecto essencial da luta pelos direitos humanos das mulheres. As moradoras da região se organizam para garantir que o acesso a cuidados de saúde seja um direito inalienável. As promessas dos conselheiros e ativistas locais de se manterem firmes na busca por uma solução são um sinal de que a comunidade não vai desviar o foco até que as necessidades sejam atendidas.

Por que a Saúde da Mulher é Prioridade?

A saúde da mulher deve ser uma prioridade em qualquer plano de saúde pública, dado que o câncer de mama é uma das principais causas de morte entre mulheres no Brasil. O acesso a mamografias regulares é crucial para a detecção precoce e, consequentemente, para a elevação das taxas de cura. Garantir que as mulheres do Butantã tenham acesso a esses serviços não é apenas uma questão de procurar um melhor atendimento, mas sim um imperativo moral que reflete a responsabilidade do governo em proporcionar a todos o direito à saúde.