Um prédio projetado pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha em 2003 e construído em 2004, no Bairro do Butantã, Zona Oeste de SP, que serve como referência da arquitetura moderna de São Paulo, será o primeiro no Brasil a sofrer uma transposição. Ou seja, será demolido para dar lugar a uma nova obra e reconstruído em outro lugar, dois quarteirões adiante, com as mesmas características, como um clone.
O prédio, com 400 metros quadrados, abriga a galeria Leme de arte e teve seu terreno vendido para o grupo Odebrecht, junto com vários outros no quarteirão, para que se levante no lugar uma imensa torre de escritórios. O proprietário da galeria, Eduardo Leme, um ex-executivo do mercado financeiro, só aceitou o negócio com o compromisso da construtora de refazer a obra com o projeto original. Paulo Mendes da Rocha, um dos dois brasileiros a ganhar o prêmio Pritzker, aquele que é considerado o Oscar da arquitetura (o outro foi Oscar Niemeyer), diverte-se com a aventura: “A modernidade está fazendo com que os imóveis virem móveis”.
O prédio da galeria Leme foi construído em concreto armado e tem um pé-direito de nove metros de altura. Seu projeto chama a atenção de especialistas pela entrada da luz natural nas grandes áreas de parede, próprias para exposições de arte. Exatamente pela sua qualidade arquitetônica, tornou-se um problema para a Odebrecht quando ela resolveu demolir alguns imóveis da Rua Agostinho Cantu para construir um gigantesco edifício de escritórios, numa região que está se valorizando pela chegada do Metrô. Tratar com os proprietários, que mantinham pequenos negócios comerciais na rua, foi fácil. O difícil seria enfrentar a opinião pública depois de demolir uma obra considerada um dos cartões postais da cidade. Diante do impasse, surgiu a ideia de clonar o projeto do renomado arquiteto em outro terreno próximo.
Procurada pelo Diário de S. Paulo, a Odebrecht limitou-se a dizer, por meio de sua assessoria de imprensa, que adquiriu o terreno onde está situada a galeria e se comprometeu a fazer a transposição do edifício, para um terreno próximo, respeitando as características do projeto original. Eduardo Leme afirmou que seria impossível se manter no lugar original, que virou um grande canteiro de obras. Por isso, aceitou reconstruir o prédio em outro local, com o projeto original, já que o prédio é um dos principais diferenciais da sua galeria. “O projeto será o mesmo, com pequenas adaptações, já que o terreno novo tem dimensões um pouco diferentes”, disse.
O arquiteto Gustavo Cedroni, do escritório Metro, que participou tanto do projeto original como da sua adaptação para o novo terreno, contou que agora será possível abrigar no mesmo lugar também um estúdio. Ambas as construções serão ligadas por uma ponte. Esse prédio anexo ao principal abrigará, ainda, um espaço expositivo e uma residência para artistas convidados. “Esse anexo será a diferença do projeto original.”
Apesar de chamar a atenção pelo ineditismo, a ideia de clonar este edifício não agrada a unanimidade dos arquitetos. Maria Lucia Bressan Pinheiro, professora de história da arquitetura da USP (Universidade de São Paulo) criticou a iniciativa. “Esse tipo de transfusão de imóveis é altamente discutível, porque um projeto é feito para um momento específico, num terreno com características próprias, recursos técnicos próprios que nunca se repetem em outra situação”, afirmou. “Por isso, penso que o correto seria fazer um novo projeto.”
A clonagem de edifícios não é uma novidade no mundo. Existem casos emblemáticos como o Pavilhão Alemão em Barcelona, projetado pelo arquiteto alemão Mies van der Rohe , cuja reconstrução foi inaugurada em 1986 no mesmo local onde outrora existiu o original. O prédio foi erguido para a feira mundial de 1929 em Barcelona, na Espanha.
Considerado um marco importante na história da arquitetura moderna, sendo conhecido pela sua geometria depurada e pelo uso inovador e extravagante de materiais tradicionais, tais como o mármore, ou de novos materiais industrializados, como o aço e o vidro, foi demolido no final da feira, mas devido à importância que teve para a história da arquitetura e na própria biografia do arquiteto, a Fundação Mies van der Rohe encomendou sua reconstrução, no mesmo local, durante a década de 1980.
Outro exemplo é o pavilhão denominado “Espírito Novo”, projetado pelo arquiteto suíço Le Corbusier para a exposição de artes decorativas de 1925, em Paris e reerguido em Bolonha, na Itália, meio século depois. Nos dois exemplos houve a maior fidelidade possível ao projeto original, o que envolveu a consulta minuciosa a desenhos antigos, fotografias de época, sondagens de solo, depoimentos de colaboradores dos arquitetos autores, já que eles não estavam mais vivos no momento das reconstruções.
Fonte: Diário de S. Paulo
