Moradores do Butantã City, na zona oeste, perto da USP, uma das áreas residenciais nobres de São Paulo, querem transformar o bairro em um bolsão semelhante a Alphaville, com portão e vigilância 24 horas, para aumentar a segurança e impedir a invasão de travestis e prostitutas. A idéia conta com o apoio do subprefeito do Butantã, Maurício de Oliveira Pinterich.
– Isso é possível sim. Até sugeri que desenvolvessem um projeto de comunidade protegida, em conjunto com a Companhia de Engenharia de Tráfego, para o caso ser analisado – diz Pinterich.
Enquanto o projeto não fica pronto, a medida já vem sendo adotada em diversas ruas do bairro, onde a população, por conta própria, colocou barricadas, cancela com câmera de monitoramento, grades, obstáculos e correntes. Em algumas vias há até cartazes informando que o acesso de carros e pedestres é controlado.
A principal reclamação é contra a presença de travestis e prostitutas.
– Ninguém agüenta mais essa situação. É barulho, droga, sujeira e confusão até amanhecer. Não se pode mais entrar ou sair de casa à noite porque a rua virou ponto de prostituição – reclama Carlos Wang, vice-presidente da Sociedade Amigos do Butantã City e da Cidade Universitária.
Uma comissão de moradores está sendo formada para elaborar a minuta do projeto para apresentar na Câmara Municipal. Se não for possível isolar tudo da prostituição, os moradores querem, pelo menos, trancar ruas e calçadas à noite, entre 19h e 6h.
– A lei permite o fechamento de ruas para o trânsito, mas determina que a calçada seja livre, mesmo quando se trata de um questão de segurança – afirma Eduardo Ferraz, um dos moradores.
O trecho onde Ferraz mora, na Avenida Moncorvo Filho com Rua Gaspar Moreira, havia sido fechado com grades à noite. Porém, por causa de denúncia, o Ministério Público exigiu a reabertura.
– Se não houvesse denúncia, a rua continuaria fechada, como outras vias do bairro. O pedestre não circula a pé durante a noite – reclama Ferraz.
Com medo de que a fiscalização destruísse as grades, a moradora Maria de Lourdes Pimentel Malta, “síndica” da rua, a guardou em sua casa, na esperança de poder reverter a situação.
– Bastou tirar as grades e alguns dias depois ladrões tentaram assaltar a casa da esquina – lamenta.
Carlos Wang afirma que os moradores também estudam a possibilidade de acionar o município, para obrigá-lo a tirar a prostituição do bairro.
– Essas pessoas estão ocupando as calçadas para praticar um comércio ilegal, porque não têm Termo de Permissão de Uso (TPU). Então a Prefeitura deveria agir como faz com os camelôs.
Para a maioria dos moradores, o problema são os travestis.
– Eles ficam pelados, praticam atos obscenos e ninguém faz nada – reclama Camila Mingione, que quer fechar a rua onde mora, como a de seus pais, a Valdomiro Guilherme de Campos, uma das três vias fechadas regularmente.
Leila, travesti assídua da região, afirma que eles não querem prejudicar os moradores ou desvalorizar o bairro.
– A rua é pública, porque nós também pagamos impostos. O IPTU que eles pagam só garante exclusividade no imóvel.
Carlos Wang, vice-presidente da Sociedade Amigos do Butantã City e da Cidade Universitária, afirma que os moradores já pensaram até em atacar a clientela de travestis e prostitutas para afastá-los.
– Nossa idéia é colocar câmeras nas ruas para filmar os carros dos clientes e depois divulgar as imagens pela internet. Quero ver se eles voltam – diz.
Comerciantes são contra
Comerciantes estabelecidos da região do Butantã estão revoltados com a campanha dos moradores para transformar o bairro em condomínio.
– Eles querem comandar tudo, se sentem donos da região. Foi por causa deles que eu e dezenas de outros lojistas quebramos – diz Enriqueta Pelegrina, dona da loja Girassol, há 13 anos estabelecida na Rua Alvarenga.
Enriqueta afirma que, desde 2004, quando os moradores decidiram transformar o bairro em zona estritamente residencial, os comerciantes estão sofrendo as conseqüências.
– É um absurdo o que vem acontecendo. Metade da rua Alvarenga é considerada zona de residências e a outra não. Por isso, tive de deixar a casa onde formei toda a minha clientela e mudar para outra maior, na mesma rua, mas com aluguel muito mais caro.
Segundo a comerciante, as multas mensais de R$ 4 mil começaram a chegar em novembro de 2007, porque sua loja estava instalada em área residencial.
– Agüentei até a metade do ano mas, como outros, também fui obrigada a ceder. Agora não sei como fazer, porque estou totalmente quebrada. E também quebrei diversas famílias que empregava. Enquanto eles querem fechar o bairro, nos queremos somente poder trabalhar.
Motoristas que são obrigados a passar pelo bairro a trabalho também estão irritados com as mudanças.
– Se a gente erra uma rua, tem que dar uma volta imensa para retornar porque está tudo fechado – reclama o taxista José Maciel.