Paulo Vanzolini doa acervo ao Museu de Zoologia da USP, no Butantã

O zoólogo Paulo Emílio Vanzolini doou o acervo de sua biblioteca – mais de 25 mil itens – ao Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP). São obras raras, separatas, fascículos de periódicos, livros e mapas, reunidos ao longo de sua carreira, constituindo um dos mais completos cabedais de herpetologia (parte da zoologia que estuda os répteis), com valor estimado de US$ 300 mil. A doação faz da biblioteca herpetológica do museu a mais completa da América do Sul, com importante literatura para consulta de pesquisadores do Brasil e do exterior. “Existe uma parte, mais antiga, na biblioteca temática muito difícil de reunir. O museu não tinha essa parte; então, meu acervo particular é uma complementação”, explica o professor Vanzolini.

Para o diretor do Museu de Zoologia, o professor Sérgio Antonio Vanin, o valor científico do material é inestimável, já que agrega à biblioteca praticamente toda a bibliografia existente sobre a fauna de répteis do Brasil e da América do Sul. “Essas obras são fundamentais para o museu, fonte de referência importantíssima, porque reúnem todo o conhecimento sobre répteis da nossa região e constituem a base para a continuidade de nossas pesquisas”. Ao longo de sua carreira, o professor Vanzolini comprou, principalmente, publicações que não existiam na biblioteca do museu, de maneira que seu acervo forma uma bibliografia complementar a ela.

Lagartixa e formol – Embora seja mais conhecido pela maioria das pessoas por seu trabalho como compositor de canções como Ronda e Volta por Cima, Paulo Vanzolini é reconhecido internacionalmente no meio científico como herpetólogo. Trabalhou no Museu de Zoologia durante 47 anos, 31 como diretor vitalício. Nesse período, adquiriu livros e colecionou répteis, que gradualmente eram acrescentados ao acervo do museu. Não tem idéia de quantas espécies catalogou, apenas diz que ganhou a vida graças a uma lagartixa e a um litro de formol. E garante: a zoologia é sua verdadeira vocação. “Desde muito novo, não pensei em fazer outra coisa”, relembra. Conta que, ao entrar no curso ginasial, ganhou uma bicicleta do pai, e o primeiro passeio que fez foi ao Instituto Butantan, iniciando já naquela época a paixão que duraria até hoje. “Naquele dia, entrei no instituto e me apaixonei”, recorda Vanzolini, que aos 14 anos já estagiava no Instituto Biológico de São Paulo.

As espécies de répteis que acrescentou à coleção do museu, durante os anos em que lá trabalhou, o zoólogo trouxe das expedições científicas que realizou mundo afora, incluindo o período em que cursou doutorado na Universidade Harvard (EUA). Do tempo em que trabalhou no Chile, “ganhando muito bem dinheiro americano”, Vanzolini trouxe aproximadamente 10 mil lagartos. Lembra que lá conheceu um colecionador profissional que lhe vendia os répteis a um dólar o exemplar. “Ele tinha uma van, fazia suas viagens e, quando retornava, me entregava os lagartos”.




Importante contribuição

Da Europa, Paulo Emílio Vanzolini obteve inúmeros exemplares de répteis por meio de permuta, recurso comum entre colecionadores. “Nessa profissão, todo mundo se conhece, somos colegas”, diz o zoólogo. Na Amazônia, hábitat de muitos dos animais que descobriu, perdeu as contas de quantas vezes esteve, chegando a percorrer 11 mil quilômetros de rios. Eram viagens de três, quatro meses pelo Rio Amazonas, a bordo de um barco “com cama, bom cozinheiro, chuveiro e um banheiro perfeitamente em ordem”.

Foi de Harvard que Vanzolini trouxe, na década de 1950, importante contribuição para a zoologia brasileira: as novidades referentes à sistemática de classificação dos animais. Entre elas, o método de conciliar os aspectos evolutivos, a filogenia dos animais – sua história evolutiva – com a questão da distribuição geográfica das espécies. Essa foi, segundo o professor Vanin, talvez a maior contribuição de Vanzolini à ciência brasileira. “Naquela ocasião, esse tipo de estudo não era conhecido no Brasil”. Quando voltou ao País, além de transmitir o conhecimento a todos os pesquisadores do museu, o zoólogo Vanzolini passou a enviar pesquisadores recém-formados para os Estados Unidos, a fim que continuassem a trazer novos conceitos.

O acervo de Vanzolini inclui uma mapoteca com documentos específicos das áreas em que coletou espécies, principalmente da região amazônica, onde foi um dos pioneiros no estudo de questões zoológicas e um dos idealizadores da Teoria dos Refúgios, na década de 1970. Sua biblioteca é organizada por fichários, dados cruzados, mesmo os coletados anteriormente à informatização. “São obras que não existem no mercado, ou quando aparecem custam importância exorbitante”, conclui Vanin. Para ele, o fato de a biblioteca do museu reunir tantas obras raras em um só lugar facilitará a vida de pesquisadores, que passam a contar com todas as condições e materiais necessários para aperfeiçoar seus estudos.

O Museu de Zoologia da USP desenvolve pesquisas em vários níveis do ensino, atuando em pós-graduação, pós-doutoramento, iniciação científica, aperfeiçoamento e extensão. Oferece, de terça-feira a domingo, exposições permanentes e temporárias sobre zoologia, abertas ao público das 10 às 17 horas, bem como ciclos de palestras aos sábados sobre pesquisas realizadas no museu. Durante a semana, os ciclos de palestras são direcionados a alunos, estagiários e pesquisadores, sempre sobre temas específicos de zoologia. Os ingressos custam R$ 2. Professores, estudantes e crianças pagam meia-entrada. Escolas públicas são isentas, desde que agendem a visita antecipadamente. O Museu de Zoologia da USP fica na Avenida Nazaré, 481, no bairro do Ipiranga.

Acervo de Vanzolini

Acervo Nº de exemplares

Livros 1.938

Obras raras 93

Periódicos (fascículos) 1.372

Separatas 20.000

Mapas/cartas 2.042

Total 25.445

Fonte: Da Agência Imprensa Oficial





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